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30.5.09

Para Você


Percebi uma tristeza em você
Bem lá no fundo dos seus olhos
Uma tristeza escondida
Atrás de um sorriso encantador
Tristeza revelada num lapso atemporal
Adormecida no seu coração
Coração de quem é sensível
De quem tem inquietude pela vida
De quem saboreia o mundo em suas minucias
Percebi uma lágrima em seus olhos
Lágrima que alguem fez brotar
Deixa-me enxugar essa lágrima
E adornar com meus beijos a sua face
Envolver suas mãos nas minhas
Suavemente tocar em seu rosto
Acariciar seus cabelos
Deitar sua cabeça em meu colo
E por fim, sem mais resistir
Beijar-te apenas
Um beijo quente e ofegante
Onde minha alma encontre repouso e paz
No silencio cálido da noite
E na perfeição dos teus lábios

By Branca - Todos os direitos reservados


21.5.09

Embriaguem-se



É preciso estar sempre embriagado. 
Aí está: eis a única questão.
Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra,
é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê?
Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso,
na solidão morna do quarto,
a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar,
pergunte ao vento,
à vaga,
à estrela,
ao pássaro,
ao relógio,
a tudo que flui,
a tudo que geme,
a tudo que gira,
a tudo que canta,
a tudo que fala,
pergunte que horas são;
e o vento,
a vaga,
a estrela,
o pássaro,
o relógio responderão:
"É hora de embriagar-se!
Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se;
embriaguem-se sem descanso".
Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Charles Baudelaire

11.5.09

Jogo




Acho que cansei

A vontade é fechar os olhos e ficar bem quietinha

Na esperança de que quando eu abra perceba que foi tudo um sonho

Ah que vontade de um colo

Minhas palpebras estão pesadas

Chorar dá nisso

Pesa as palpebras

Minha face está pálida

Mais pálida do que de costume

Minhas olheiras estão mais visíveis

Quem disse que ganha quem tem razão?

Ganha quem sabe jogar e blefar melhor

Eu perdi

Não sei jogar


by Branca - Todos os direitos reservados



9.5.09

Perfume Exótico



Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce odor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d'um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher's cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros.


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
Obtido em
Wikisource

8.5.09

A Que Está Sempre Alegre



Teu ar, teu gesto, tua fronte

São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!



Baudelaire

6.5.09

Vida




A vida segue na sua monotonia do dia a dia. O senso de dever, que é o maior jugo que existe, faz com que tudo a minha volta reclame meus cuidados e atenção.



Sabe quando você mal tem tempo para olhar para dentro de si e perceber o que acontece com você mesmo?


E quando você se dá conta está triste e nem sabe o por quê?


E vez ou outra tem reações extremas, e então se desconhece?


Nessa hora que você percebe que está estrapolando vem a culpa e você sente um vazio.



Ao se abrir com um ou outro amigo ouve diferentes teorias, um fala que você está estressado e precisa de férias se não vai ter um troço, outro fala que você pecisa ir para a igreja se não está condenado a passar a eternidade em um lugar bem pior.


E você fica perdido, culpado e lógico nesse momento falta visão.


Você começa a perceber que você se transformou em uma pessoa super diferente da qual você gostaria de ter sido. Nessa hora você sente o quanto é impotente e tenta achar um culpado. Mas isso tambem não resolve.


Até que um dia, isso para resumir essa estoria toda, você se dá conta que tanta correria no dia a dia faz isso mesmo com as pessoas. As absorve tanto e tanto que elas passam anos sem olhar para dentro de si mesmas. E se perdem. Esse vazio que a gente sente é a falta de nós mesmos.


Sabe aquela que era feliz?


Aquela que podia passar horas a observar as gotinhas de chuva bailando na vidraça da janela?


Aquela que deitava na grama e ao olhar para o céu via carros, elefantes, sorvete etc nas nuvens?


Aquela que andava pelas calçadas da praça brincando de não poder pisar nas linhas?


Aquela que tudo o que queria e esperava era que chegasse as férias para simplesmente poder brincar o dia inteiro.


Aquela que gostava tanto de sentar no colo do avô e brincar de serra serra serrador.


Aquela que pegava uma uma frigideira na cozinha da avó e subia em um baú e se transformava em um pop star com sua guitarra.


Aquela que sonhava acordada com tantos e singelos sonhos e achava que os adultos complicavam muito as coisas.


Aquela que tinha medo do escuro e achava que o lugar mais seguro do mundo era um cantinho da cama dos pais.


Aquela pessoa ainda existe bem dentro de cada um de nós e só quer um pouco mais de atenção. E por você, eu e todos a desprezarem tanto, e tentarem agradá-la somente com impulsos consumistas é que ela brada dentro de nós.


Esse vazio não vai passar se você comprar um carro novo, uma casa maravilhosa, fazer mil cursos de especialização, conseguir o melhor emprego do mundo, ganhar um prêmio na loteria, se enfiar dentro de uma religião qualquer. Esse vazio só vai passar a hora que você parar e perceber quem você de fato é.


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29.4.09

FANATISMO


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."


Florbela Espanca
Livro de Soror Saudade (1923)

28.4.09

Sozinha



Hoje vomitei a verdade
Agora estou perdida
Sozinha
No meio de um furacão
Tudo gira ao meu redor
Eu não consigo ter reação
Estou com medo
Muito medo
Por que as coisas têm que ser desse jeito?
Estou inerte
Não sei o que fazer
Não sei o que será de mim
Não sei o que será de você
Não sei o que será de nós
Não foi o que planejamos
Só sei que nós dois merecemos ser felizes.

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10.4.09

Principe Desencantado(r)



Nada de mais
Nem melhor nem pior
Totalmente típico
Apenas um sapo
Disfarçado de príncipe


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23.3.09

Interregno

Me encontro 
Me perco 
Para outra vez me encontrar 
Quantas vezes ? 
Não quero mais falar de sentimentos 
Não falarei do que está estampado no meu rosto 
Não abrirei meu coração 
Tampouco me entregarei ao despropério 
De lamentar a sorte 
Falarei de flores 
Falarei de receitas de bolo 
Falarei de tudo 
Mas não falarei o que sinto




by Branca