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3.4.11

Um dia ... um quintal

Um dia eu já tive um quintal.
Um quintal lindo!!!
Com árvores frutíferas, flores perfumadas, borboletas mil, passarinhos alegres.
Banquinhos debaixo da jabuticabeira.
Sentávamos ali e ficávamos ouvindo o canto dos pássaros. Saboreávamos os doces frutos da jabuticabeira, laranjeira, pitangueira, do pé de acerola, da mexeriqueira, do jambeiro, das ameixeiras, etc.
Eu podia passar um milhão de tardes naquele lugar de tão especial que era.
Era o lugar mais gostoso de nossa casa!
Hoje se tornou um depósito de lixo e entulho.
Destruíram meu lugar especial.
Destruíram meu recanto tão agradável.
Hoje é só sujeira, lama, lixo.
Hoje tudo aquilo se perdeu. Cortaram minhas queridas arvores, Pouco a pouco, destruíram tudo.
A jabuticabeira que ainda resiste a tudo, já não tem mais aqueles agradáveis banquinhos debaixo dela.
Hoje ela está afundada em entulhos por todos os lados.
Eu me entristeço no fundo da alma quando vou lá e sei que ela está triste também.
Ninguém mais suporta aquele lugar.
Eu sinto como se tivesse sido roubada. Roubaram a minha alegria.
Sequer posso reclamar. De nada adianta.
Posso apenas entristecer-me.
Entristecer-me e sentir saudades do meu lugar especial. Pois não me entendem. É como se todo aquele entulho fosse muito mais necessário.
Quem se importa com o que penso ou acho de tudo isso?
Não tenho esse direito. Sou como um nada. Morri.
É isso. Estou morta. Portanto ninguém me vê, ninguém me ouve, ninguém se importa com meus sentimentos.
Quando falo me ouvem, mas não me escutam. São apenas tolices.
Deve ser assim que se sentem as almas que voltam na terra e vêem as coisas que lhe eram tão caras jogadas, destruídas, desprezadas.

by Branca - Todos os direitos reservados


postada originalmente em 22/04/09

25.2.10

In Finito


Imagem
Fragmentada
Mera visão virtual
Apagada
Sem deixar nada
Nenhum resquício
De sentimento ou memória
Boca calada
Silêncio sem dor
Ausência sem saudade

by Branca

29.4.09

FANATISMO


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."


Florbela Espanca
Livro de Soror Saudade (1923)