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30.1.12

SERÁ QUE É PEDIR MUITO?



Eu queria seu carinho
Seus abraços
Seus beijos
Queria dormir no seu abraço
Sentir seu cheiro
Sua respiração
Queria o seu toque nos meus cabelos
Seus olhos nos meus olhos
Que conversasse comigo
Queria que procurasse me conhecer
Saber quem eu sou
Queria sair com você de mãos dadas
Mãos dadas, não apenas que estivesse segurando na minha mão
Mas que tivesse consciencia de que estavamos de mãos dadas.
Eu queria que olhasse nos meus olhos de verdade
Que falasse comigo olhando bem lá dentro dos meus olhos
Queria que dissesse coisas que eu gostaria de ouvir
Mas que eu nunca precisasse te pedir isso.
Queria que fosse natural.
Queria de vez em quando que você ficasse comigo na cozinha e juntos pudessemos preparar algo, desfrutando do prazer da companhia um do outro.
Queria que você estivesse comigo, que fosse meu amigo, meu companheiro, meu cumplice, meu confidente.
Queria que simplesmente me ouvisse quando eu me abrisse com você, e não que viesse com soluções prontas ou que procurasse justificar dizendo que o que estava me acontecendo era culpa minha mesmo, mesmo que fosse. Eu só queria um ouvido, um ombro, um parceiro.
Eu queria sentir que sou importante para você, que minhas opiniões fosse valorizadas e levadas em conta na hora de decidir até mesmo coisas triviais como qual cor pintaremos o nosso quarto ou onde vamos colocar uma planta.
Eu queria me sentir mais que simplesmente desejada como mulher mas amada como uma pessoa, um ser pensante.
Eu esperei muito por tudo isso e muito mais. Eu esperei anos a fio.
Eu estive aqui do seu lado e sempre esperando você voltar e sempre acreditando no amor que eu sentia por você.
E sempre acreditando que todas as minhas escolhas tinham sido certas,  pelo simples fato de que foram sempre sinceras.
E é disso que hoje eu preciso.
Continuar sendo verdadeira nas minhas escolhas.
Continuar sendo verdadeira comigo mesma.
Eu fui aos poucos me moldando na realidade que me surgiu.
Eu fui criando casca nas feridas e aprendendo a me curar sozinha.
Por não ter com quem falar pois quando falava era atacada com críticas e censuras.
Eu aprendi a sobreviver comigo mesma.
Meu processo foi acontecendo lentamente.
Não foi de um dia para o outro como parece.
O problema é que você não teve sequer sensibilidade para perceber o que acontecia.
Não, você nunca me levou a sério.
Eu entendo hoje que nunca fui ouvida de fato.
Ninguem chegou perto de mim, como você poderia ter chegado.
E eu lhe digo uma coisa, eu valho muito a pena.
Mas algumas nuances do meu ser estão guardadas, intocadas, porque ainda nenhum mortal conseguiu atingir. Eu tenho guardado isso a vida toda.
E continuará guardado por uma simples questão de que não foram despertados.


Branca


(escrito em algum dia triste de 2009)

8.1.12

Clarice Lispector fala por mim.

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CARTA DE BERNA
(Clarice Lispector a Tania Kaupmann)

Berna, 6 janeiro 1948

Minha florzinha,

recebi sua carta desse estranho Bucsky, datada de 30 de dezembro. Como fiquei contente, minha irmãzinha, com certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há muita coisa viva em mim. Mas não, minha querida! Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você.

Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades — depois disso fica-se um pouco um trapo.

Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos levar de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar.

Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? assim fiquei eu..., em que pese a dura comparação... Para me adaptar (sic) ao que era inadatável (sic), para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus aguilhões — cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força.

Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que nos leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida — que não era maravilhosa mas era uma vida — eu me transforme inteiramente.

Mariazinha, mulher do Milton, um dia desses encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então... Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado.

Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido:
respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você — respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você — pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita —não copie uma pessoa ideal, copie você mesma — é esse o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas.

Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia — será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber — pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade de alma.

Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer_o que você deseja – seja sair nos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras — porque como poderíamos fazer bem uma a outra sem esse mínimo de sinceridade?
Que o ano novo lhe traga todas as felicidades, minha querida. Receba um abraço de muita saudade, de enorme saudade de sua irmã
Clarice-

(Nota: Carta de Clarice Lispector à sua irmã Tânia, do livro "Correspondências Clarice Lispector", Editora Rocco, págs. 165, 166, 167)